Grazi Farias - Photo: Piobellas e Victor Galvão

Nesta entrevista exclusiva, Grazi Farias conduz uma reflexão rara e sofisticada sobre sensualidade, corpo e imagem. Longe da lógica da exposição gratuita, ela fala a partir do lugar do controle, da intenção e da consciência onde cada gesto carrega escolha e cada pausa tem significado.

Ao longo da conversa, Grazi revela como o silêncio entre um clique e outro se torna mais poderoso do que a pose, como o corpo pode ser simultaneamente território, linguagem e manifesto, e por que a verdadeira força da fotografia está em reorganizar o olhar interno de quem vê e de quem é vista. Uma narrativa que desacelera, convida à contemplação e reafirma a sensualidade como presença, nunca como ruído.

O que diferencia a sensualidade da exposição, especialmente em ensaios fotográficos?

A diferença está no controle e na intenção. Sensualidade acontece quando eu conduzo a narrativa do meu corpo, quando existe consciência, escolha e presença em cada gesto. Exposição surge quando o corpo é mostrado sem propósito, apenas para preencher um espaço visual. Para mim, sensualidade é linguagem silenciosa; exposição é ruído.

Diante das câmeras, o que mais te conecta com a sua essência: o corpo, o olhar ou o silêncio?

O silêncio entre um clique e outro. É nesse intervalo que o corpo se organiza, o olhar se aprofunda e a imagem deixa de ser performance. O silêncio me ancora, me tira da expectativa externa e me devolve para dentro, onde tudo começa de forma verdadeira.

A paixão pelos ensaios nasceu como expressão artística, autoconhecimento ou libertação?

Ela nasceu como expressão artística, mas rapidamente se tornou autoconhecimento. A libertação veio depois, no momento em que entendi que eu não precisava agradar, provocar ou justificar nada. Quando o ensaio passou a ser um espaço de presença e não de validação, ficou claro o porquê eu estava ali.

Como você enxerga o corpo feminino hoje: como território, linguagem ou manifesto?

Eu enxergo como os três, coexistindo. O corpo é território porque guarda história, limites e escolhas. É linguagem porque comunica antes da fala. E é manifesto porque, ao existir com autonomia, ele desafia padrões sem precisar levantar a voz.

Existe um limite pessoal entre o que é íntimo e o que pode ser compartilhado artisticamente?

Existe, e ele é inegociável. Eu reconheço esse ponto quando sinto que a imagem ainda me representa por inteiro, sem me fragmentar. O artístico amplia quem eu sou; o íntimo permanece protegido. Quando essa fronteira se mantém, a imagem ganha força e verdade.

De que forma a fotografia pode transformar a maneira como uma mulher se vê, além da estética?

A fotografia tem o poder de reorganizar o olhar interno. Ela pode devolver dignidade ao corpo, revelar força na suavidade e mostrar que presença não depende de padrões. Muitas vezes, uma imagem bem conduzida faz a mulher se enxergar com mais respeito do que ela mesma se permitia antes.

Em um mundo que ainda tenta enquadrar corpos e desejos, o que significa se permitir ser vista sem pedir permissão?

Significa soberania sobre a própria existência. É entender que meu corpo não é argumento, nem convite, nem explicação. Ser vista sem pedir permissão é assumir o direito de ocupar espaço com tranquilidade e consciência.

Que mensagem você gostaria que alguém sentisse ao ver um ensaio seu?

Eu gostaria que sentisse contemplação. Que o olhar desacelerasse. O desejo pode surgir, a identificação pode acontecer, mas o que realmente importa é a sensação de presença aquela pausa silenciosa que faz quem vê se conectar consigo antes de me interpretar.

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